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Pensar o Brasil Evangélico: Esquema interpretativos

Informações básicas: 

  • Datas: 26/08, 28/08, 02/09 e 04/09, 

  • Quartas e sextas, das 20h às 22h.

  • Plataforma: Google Meet 

  • Valor: R$150

  • Valor promocional com livro Eis ai, o povo brasileiro por R$ 170

  • Carga horaria: 10h

Ementa:

Para além do senso comum da manipulação moral, dominação pastoral, imperialismo religioso e outros tantos termos que correm na interpretação dos evangélicos por parte da esquerda, queremos pensar o Brasil evangélico em dois sentidos: os evangélicos enquanto parte do Brasil e o Brasil que os evangélicos imaginam. Expor, desse modo, como essa fé de matriz estadunidense se aclimata por aqui durante quase um século e, ainda assim, entender como ela se realiza enquanto uma fé que se organiza a partir de uma imagem de nação e chega a ter uma derivação política que ganha as eleições presidenciais em 2018.

Em uma primeira aula, vamos passar pelas linhas gerais de interpretação do Brasil em quatro momentos, começando pelos primeiros esforços de explicar o Brasil, que Antonio Candido chama de "consciência amena do atraso", onde o país era explicado pela sua novidade; passando pelo que o mesmo autor chama de "consciência catastrófica do subdesenvolvimento", onde a realização do país agora era um esforço cultural e político que deveria superar a situação brasileira, agora explicada pelo seu lugar na divisão internacional do trabalho — desenvolver o Brasil era a solução. Mas essa consciência encontrou sua verdade na sua não realização: o golpe de 64 matava as possibilidades desse esforço, criando uma nova consciência imbuída em entender esse impasse nacional, chegando até a nossa atual "consciência apocalíptica da crise", onde o país é posto enquanto uma crise constante na qual não se consegue imaginar uma saída.

Em um segundo encontro, vamos percorrer os esforços de interpretação do evangelicalismo. Partindo dos primeiros esforços sociológicos dos anos 70-80, que tentavam tatear os evangélicos, sobretudo pentecostais periféricos, o que daria em um certo ponto de vista que entendia o pentecostalismo como uma racionalização da vida dos paupérrimos. Em contraposição a essa visão, também iremos encontrar a leitura crítica da presença dos pastores nas mídias de massa e sua lógica de mercado. Indo até a visão agora mais recorrente do evangelicalismo enquanto uma máquina de manipulação e instrumentalização da fé que gera política. Nos importa passar por isso para estarmos cientes dos argumentos do debate, tanto da leitura do Brasil quanto da interpretação dos evangélicos.

A partir da terceira aula, vamos começar a apresentar nossos esquemas próprios de interpretação. E as duas aulas iniciais são necessárias porque elas oferecem o escopo teórico que percorremos até chegar a esses esquemas. A começar pelo debate da centralidade da música gospel na formação da identidade evangélica, como ele é nuclear para as produções dos grandes eventos, rádios e produtoras de música. Queremos propor, ainda, que nesse nível de realização cultural, o Diante do Trono é a realização sonora dessa operação prática da fé. Não por acaso, o grupo se torna quase parte intocável das músicas que se cantam dominicalmente em qualquer igreja evangélica. Esse é o momento em que vamos expor como os pentecostais e protestantes saem da sua ética ascética e, juntos, começam a visualizar a transformação da realidade nacional a partir dos “olhos da fé". É a constituição desse Brasil que os evangélicos imaginam.

No nosso último encontro, vamos expor uma visão de como essa visão efêmera e metafísica de Brasil vai começar a ganhar contornos e as características da luta política institucional ainda no governo Lula, a partir de dois eixos: as questões de “gênero", que no começo se concentram no tema da “homossexualidade" mas vão derivar em diversas coisas; e o eixo da luta contra a corrupção, que se torna uma das narrativas centrais na tomada pública de posição política entre lideranças contra o petismo, tendo 2016 como seu estopim. A consolidação de uma linguagem evangélica que organiza a luta política da extrema direita deve ser vista desse modo: como um complexo processo em que uma gramática religiosa produzida durante décadas se torna a língua onde a revolução conservadora brasileira pôde acontecer.

Aulas:
 


1. Breve percurso no problema-brasil (26/08)

  • A consciência amena do atraso

  • A consciência catastrófica do subdesenvolvimento 

  • A consciência do impasse nacional 

  • A consciência apocalíptica da crise

 

2. História das interpretações dos evangélicos (28/08)

  • A sociologia comparativa

  • A religião que racionaliza os pobres

  • O império mercadológico da fé

  • A máquina de manipulação política  

 

3. A formação do Brasil avivado (02/09)

  • O gospel como campo comum criativo 

  • A chama acesa em cada grande evento

  • A realização “Diante do trono”

 

4. A politização do brasil avivado (04/09)

  • O eixo articulador do “gênero”

  • O eixo articulador da “corrupção”

  • A realização da apocalíptica bolsonarista 

Bibliografia Base:

  • ASSMANN, Hugo. A igreja eletrônica e seu impacto na América Latina. Petrópolis: Vozes, 1986.

  • ARANTES, Paulo Eduardo. Sentimento da dialética na experiência intelectual brasileira: dialética e dualidade segundo Antonio Candido e Roberto Schwarz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

  • CUNHA, Magali do Nascimento. Vinhos novos em odres velhos: um olhar comunicacional sobre a explosão gospel no cenário religioso evangélico no Brasil. São Paulo, 2004. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo.

  • MAFRA, Clara. Os evangélicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

  • MARIZ, Cecília Loreto. Coping with Poverty: Pentecostals and Christian Base Communities in Brazil. Philadelphia: Temple University Press, 1994.

  • SCHWARZ, Roberto. Nacional por subtração. In: ______. Que horas são?: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

Bibliografia expandida: 

ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo. São Paulo: Boitempo, 2014.

ASSMANN, Hugo. A Igreja eletrônica e seu impacto na América Latina. Petrópolis: Vozes, 1986.

BARROS, Douglas. O que é identitarismo? São Paulo: Boitempo, 2024.

CANETTIERI, Thiago. A condição periférica. Rio de Janeiro: Consequência, 2020.

CARVALHO, Olívia Bandeira de Melo. O mundo da música gospel entre o sagrado e o secular: disputas e negociações em torno da identidade evangélica. 2017. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

CASTRO, André. A luta que há nos deuses: da Teologia da Libertação à extrema direita evangélica. Rio de Janeiro: Editora Machado, 2024. 

CASTRO, André. Considerações sobre a leitura popular da Bíblia hoje: a densidade epistemológica do sentimento evangélico de Brasil. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, v. 95, n. 1, p. 227–237, 2025.

CASTRO, André. Two canoes and a storm. In: The battle among the gods. Cham: Palgrave Macmillan, 2025. p. 1–20.

CASTRO, André. Um teólogo na periferia do capitalismo: Fé como práxis em Hugo Assmann. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2024.

CASTRO, André. Eis aí, o povo brasileiro. Rio de Janeiro: e-galáxia, 2026.

CAUX, L. P. de; CATALANI, F. A passagem do dois ao zero: dualidade e desintegração no pensamento dialético brasileiro. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 74, p. 119–146, 2019.

COLLI, Nathalia Elisa. Antonio Candido e o exercício da fantasia no nosso tempo. Magma, São Paulo, v. 1, n. 21, p. 22–37, 2025.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. A operação do carisma e o exercício do poder: a lógica dos ministérios das igrejas Assembleias de Deus no Brasil. 2013. Tese (Doutorado em Ciências da Religião) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.

FERRO, Tiago. Um outro percurso do nosso tempo: Roberto Schwarz. 2023. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade de São Paulo, 2023.

HILÁRIO, Leomir Cardoso. Por uma teoria crítica periférica: crise, colapso e constelações no projeto da modernidade. 2016. 331 f. Tese (Doutorado em Psicologia Social) – Instituto de Psicologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.

MARIANO, Ricardo. Sociologia do crescimento pentecostal no Brasil: um balanço. Perspectiva Teológica, v. 43, n. 119, p. 11–31, 2011.

MARIANO, Ricardo. O futuro não será protestante. Ciencias Sociales y Religión/Ciências Sociais e Religião, Porto Alegre, v. 1, n. 1, p. 89–114, set. 1999.

MARIZ, Cecilia. Religion and poverty in Brazil: a comparison of Catholic and Pentecostal communities. Sociological Analysis, v. 53, n. 1, p. S63–S70, 1992.

MOCHEL, Lorena. A fluidez da unção: raça, gênero e erotismos evangélicos nas materialidades de um ministério digital. 2023. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

NOVAES, Regina Reyes. Os escolhidos de Deus: pentecostais, trabalhadores e cidadania. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1985.

OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à Razão dualista/O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003.

PASSOS, João Décio. Teogonias urbanas: o re-nascimento dos velhos deuses. 2001. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – PUC-SP, 2001.

PIERUCCI, Antônio Flávio. A religião como solvente: uma aula. Novos Estudos CEBRAP, n. 75, 2006.

RICHARD, Pablo et al. A Luta dos Deuses: os ídolos da opressão e a busca do Deus Libertador. São Paulo: Paulinas, 1982.

ROLIM, Francisco Cartaxo. Religiões e Classes populares. Petrópolis: Vozes, 1980.

ROSAS, Nina. Cultura evangélica e “dominação” do Brasil: música, mídia e gênero no caso do Diante do Trono. 2015. Tese (Doutorado em Sociologia) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

SANT'ANA, Raquel. A nação cujo Deus é o Senhor: a imaginação de uma coletividade "evangélica" a partir da Marcha para Jesus. 2017. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

SILVA, Arthur Henrique Martins da. Samba com Cristo: identidade, cultura e religião em sambistas evangélicos no Rio de Janeiro. 2022. Dissertação (Mestrado em Sociologia e Antropologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

VIANA, Silvia. Rituais de sofrimento. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013

Professor:

André Castro casceu em Pernambuco, mas cresceu na Bahia. Graduado em Teologia (FLAM), mestre em Ciências da Religião (UMESP). Editor e colunista na Revista Zelota. É autor de Eis aí, o povo Brasileiro (Galáxia, 2026) A luta que há nos deuses (Machado, 2024) e Breve história da teologia da libertação protestante (Recriar, 2022). Pesquisa os nexos entre imaginação religiosa e processo social na América Latina entre a Teologia da Libertação e o Brasil avivado.

Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros? (Drummond)

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